Blog do Cristian Arantes

Lacan Seminário 21: Os Não-tolos Erram em PDF

Lacan Seminario 21

Resumo do Livro “Lacan Seminário 21: Os Não-tolos Erram (Les non-dupes errent)”

O Seminário 21 de Jacques Lacan, intitulado Os Não-tolos Erram (Les non-dupes errent), proferido entre 1973 e 1974, é um marco da transição para o “último ensino” de Lacan. O título é um jogo de palavras intraduzível que encapsula a tese central do seminário: ele soa exatamente como Les Noms-du-Père (Os Nomes-do-Pai). Com essa homofonia, Lacan faz uma crítica mordaz aos psicanalistas de sua época que se consideravam “não-tolos”, ou seja, espertos o suficiente para não serem enganados pelo inconsciente. Lacan adverte que são precisamente estes que “erram”, no duplo sentido de estarem enganados e de vagarem sem rumo. Para não errar, é preciso aceitar ser um “tolo” do inconsciente, deixar-se levar por seus equívocos e surpresas.

Este seminário é fundamental porque é aqui que Lacan começa a utilizar de forma sistemática o Nó Borromeano como o principal modelo para pensar a estrutura do sujeito. O nó, composto por três anéis entrelaçados de tal forma que, se um for cortado, os outros dois se soltam, torna-se a nova representação da sua tópica Real, Simbólico e Imaginário (RSI). Lacan se afasta da primazia do Simbólico (a linguagem) que caracterizou seu ensino anterior e passa a propor uma equivalência entre os três registros. Eles são três consistências distintas, mas interdependentes, amarradas pelo nó. O seminário é uma exploração topológica da psique, onde o Nome-do-Pai, antes o significante chave da estrutura, é pluralizado e relativizado. Ele é apenas uma das maneiras de amarrar o nó, e talvez nem seja a mais importante.

Os Não-tolos Erram: A Crítica à Suficiência do Analista

O título do seminário é uma advertência ética. Lacan critica a posição do analista que acredita ter dominado o saber psicanalítico, que se julga capaz de interpretar o inconsciente de forma objetiva, sem ser afetado por ele. Esse analista “não-tolo” se coloca em uma posição de mestre, de quem não é enganado. Para Lacan, essa é a maior ilusão de todas.

O inconsciente, por estrutura, é um saber que não se sabe. Ele é feito de equívocos, de tropeços, de significantes que produzem efeitos de gozo para além do sentido. A única maneira de operar com o inconsciente é aceitar ser seu “tolo”, ou seja, se deixar surpreender por ele, “errar” (vagar) com ele sem um plano pré-definido. O analista não interpreta a partir de um saber prévio, mas a partir do ponto em que seu próprio saber falha, a partir do ponto em que ele é confrontado com um não-saber.

O jogo de palavras com os Nomes-do-Pai (Noms-du-Père) é crucial. O Nome-do-Pai, que no ensino anterior de Lacan era o significante fundamental que ancorava a estrutura simbólica e barrava o gozo, é aqui pluralizado. Não existe mais “O” Nome-do-Pai, mas “nomes”, no plural. Isso significa que a função paterna, a função de lei e de nomeação, pode ser exercida por diferentes significantes, por diferentes semblantes. O pai biológico, a lei, a tradição, a ciência – todos podem funcionar como “nomes-do-pai”, como operadores que tentam amarrar a realidade. Mas todos eles são, em última análise, semblantes. O “não-tolo” é aquele que acredita na suficiência de um desses nomes, enquanto o analista é aquele que sabe que todos eles são apenas tentativas de dar um sentido a um Real que, em si, não tem sentido.

O Nó Borromeano: Uma Nova Tópica para o Sujeito

A grande inovação do Seminário 21 é a introdução do Nó Borromeano como o novo paradigma para pensar a estrutura do sujeito. Lacan busca na topologia, a matemática das formas e dos nós, uma maneira de escrever a relação entre o Real, o Simbólico e o Imaginário que escape às limitações da representação espacial intuitiva.

O Nó Borromeano é um nó de três anéis (ou elos) com uma propriedade notável: eles estão ligados de tal forma que, se um anel for cortado, os outros dois, que não estavam diretamente ligados entre si, se soltam. Nenhum anel é mais importante que o outro. A ligação é garantida pela estrutura do nó como um todo.

Lacan atribui cada anel a um dos três registros:

  • O Real (R): O impossível, o que não pode ser simbolizado, o gozo.
  • O Simbólico (S): A linguagem, a cadeia significante, a lei.
  • O Imaginário (I): A imagem, o corpo, o eu (moi), a relação especular.

Essa nova tópica representa uma mudança radical em relação ao ensino anterior de Lacan:

  1. Equivalência dos Registros: No ensino anterior, o Simbólico tinha uma primazia sobre os outros dois. Era a linguagem que estruturava o Real e o Imaginário. Com o nó, os três registros são colocados em pé de igualdade. Todos são igualmente necessários para que a estrutura se sustente. A realidade psíquica reside na própria amarração dos três, não em um deles em particular.
  2. O Sujeito como Nó: O sujeito não está “em” um dos registros, mas é o próprio nó. A identidade e a realidade de um sujeito dependem da maneira como seus três registros estão amarrados. Um nó bem amarrado corresponde a uma estrutura neurótica relativamente estável. Um erro na amarração, um lapso no nó, pode levar à psicose.
  3. O Nome-do-Pai como Amarração: O que amarra os três registros? Lacan sugere que, na neurose, a função do Nome-do-Pai é precisamente a de ser o quarto elemento que garante a amarração borromeana dos outros três. Ele funciona como um sinthoma, uma solução que mantém a estrutura unida. Isso abre a porta para a ideia, que será desenvolvida nos seminários seguintes, de que outras coisas além do Nome-do-Pai podem cumprir essa função de amarração.

A Lógica da Inexistência

Com o nó, Lacan aprofunda sua lógica da inexistência. O que o nó mostra é que a relação entre os registros é de exterioridade. O Simbólico não “contém” o Real. Eles se tocam, se sobrepõem em certos pontos, mas permanecem distintos. O que os une é o próprio nó, não uma substância comum.

Isso reforça a tese de que “não há relação sexual”. A relação sexual seria o ponto onde o Real, o Simbólico e o Imaginário se fundiriam perfeitamente. Mas o nó mostra que essa fusão é impossível. O que há são pontos de intersecção, como o objeto a (que Lacan situa na intersecção dos três registros) e o gozo fálico (na intersecção entre Simbólico e Real) e o sentido (na intersecção entre Simbólico e Imaginário).

O nó é uma máquina para pensar a falta, a inexistência, a impossibilidade. A realidade não é uma totalidade plena, mas uma estrutura furada, mantida unida por uma amarração precária. A vida psíquica é o esforço contínuo para manter esse nó amarrado, para evitar que tudo se desfaça.

Conclusão: Rumo ao Último Lacan

O Seminário 21: Os Não-tolos Erram é um seminário de transição, mas de uma importância capital. Ele marca o momento em que Lacan abandona a primazia da linguística e adota a topologia como sua principal ferramenta de formalização. É o início do “último Lacan”, um Lacan mais preocupado com o Real do gozo do que com o sentido do inconsciente.

Ao introduzir o Nó Borromeano, Lacan nos oferece uma nova e poderosa imagem da mente humana: não como um aparelho com instâncias, mas como uma estrutura topológica, um nó frágil que amarra corpo, linguagem e gozo. A crítica aos “não-tolos” é um chamado ético para uma prática analítica mais humilde, uma prática que reconheça os limites do saber e se deixe guiar pelos equívocos do inconsciente.

Este seminário prepara o terreno para as elaborações finais de Lacan sobre a psicose, a arte e o fim da análise. É uma leitura desafiadora, que exige uma familiaridade com os conceitos anteriores, mas que recompensa o leitor com uma visão vertiginosa da condição humana. Para quem deseja acompanhar Lacan em sua virada topológica, o estudo do Lacan Seminário 21 em PDF é um passo fundamental.

LINK PARA DOWNLOAD

Está gostando do conteúdo? Compartilhe!

0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
0 Comentários