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Resumo do Livro “Lacan Seminário 20: Mais, ainda (Encore)”
O Seminário 20 de Jacques Lacan, intitulado Mais, ainda (em francês, Encore, que também soa como “em-corpo”), proferido entre 1972 e 1973, é um dos mais famosos, poéticos e revolucionários de seu ensino. É aqui que Lacan apresenta em sua forma final e mais elaborada as suas fórmulas da sexuação. Essas fórmulas, escritas em uma linguagem quase matemática, não definem o que é um homem ou uma mulher em termos biológicos ou psicológicos, mas estabelecem duas posições lógicas distintas em relação ao gozo e à função fálica. O seminário é uma exploração radical da diferença sexual, culminando na afirmação de que a mulher, por sua posição lógica, tem acesso a um gozo suplementar, um gozo Outro, para além do gozo fálico. É o gozo do “mais, ainda”, um gozo infinito, inefável, que escapa à palavra e que Lacan aproxima da experiência mística.
Lacan retoma sua máxima “não há relação sexual” para mostrar que o que existe no lugar dessa relação impossível é o amor, o desejo e, fundamentalmente, o gozo. Ele distingue o gozo fálico, localizado, ligado ao significante e ao órgão, do gozo feminino, que é “não-todo” fálico, um gozo do corpo que não se limita ao órgão. Este seminário é uma celebração da alteridade feminina e uma crítica a todo pensamento que tenta universalizar e normalizar a experiência humana. É um mergulho na lógica, na poesia e na mística para tentar dizer algo sobre o que, por estrutura, não pode ser dito.
As Fórmulas da Sexuação: Lado Homem, Lado Mulher
O coração do Seminário 20 é o quadro das fórmulas da sexuação. Lacan divide o quadro em dois lados, o lado homem e o lado mulher, cada um definido por um conjunto de fórmulas lógicas.
O Lado Homem (O Todo Fálico)
- ∀x Φx (Todo x é submetido à função fálica): Esta fórmula estabelece o universal masculino. “Todo homem” está submetido à lei da castração, à função fálica. Para ser um homem, é preciso passar pela castração simbólica.
- ∃x ¬Φx (Existe um x que não é submetido à função fálica): Esta é a exceção que funda o universal. Para que “todos” sejam submetidos à lei, é preciso que exista logicamente “pelo menos um” que escape a ela. Esse “um” é o Pai mítico da horda primitiva de Freud, o pai não castrado que gozava de todas as mulheres. O homem se constitui em relação a esse universal e a essa exceção. Seu gozo é inteiramente regulado pela lógica fálica.
O Lado Mulher (O Não-Todo Fálico)
- ¬∀x Φx (Não-todo x é submetido à função fálica): Esta é a fórmula que define a posição feminina. “Não-toda” mulher está submetida à função fálica. Isso não significa que algumas estão e outras não, mas que cada mulher, em sua singularidade, não está completamente imersa nessa lógica. Há algo nela que escapa.
- ¬∃x ¬Φx (Não existe um x que não seja submetido à função fálica): Do lado mulher, não há exceção. Nenhuma mulher escapa à castração. E é precisamente porque não há exceção que o universal “todas as mulheres” não pode ser formado. “A” Mulher não existe, diz Lacan. Existem mulheres, uma a uma.
Essa assimetria lógica tem consequências imensas. O homem, definido pelo universal, busca na mulher o objeto a que causa seu desejo, o objeto que parece prometer a completude. A mulher, definida pelo não-todo, não está inteiramente nessa busca. Sua relação com o homem é uma, mas ela tem outra coisa, um “mais, ainda”.
O Gozo Fálico e o Gozo Outro (Feminino)
A consequência mais importante das fórmulas da sexuação é a distinção entre duas formas de gozo:
- O Gozo Fálico: É o gozo que está ligado ao significante, à representação, ao órgão (o pênis como seu suporte imaginário). É um gozo localizado, contável, que se pode ter ou não ter. É o gozo que está em jogo na fantasia e no sintoma. O homem, por estar todo na lógica fálica, está limitado a este tipo de gozo.
- O Gozo Outro (ou Gozo Feminino): Por ser “não-toda” fálica, a mulher tem acesso a um gozo suplementar, um gozo para além do falo. Este gozo não é localizável, não é contável, não passa pela representação. É um gozo do corpo, mas do corpo como um todo, um gozo infinito, absoluto. Lacan o descreve como um gozo “enigmático”, “louco”, “místico”.
Para falar desse gozo, Lacan recorre aos escritos dos místicos, como Santa Teresa d’Ávila, que descrevia seus êxtases como uma dor tão intensa que era um prazer supremo. “Eu sei do que ela goza, mas ela não sabe”, diz Lacan. A mística sabe que goza, sente em seu corpo, mas não pode dizer nada sobre isso, pois esse gozo está fora do simbólico, fora da palavra.
A mulher, portanto, está dividida. Por um lado, ela participa do gozo fálico (ela pode gozar do órgão do parceiro, ou de seu próprio clitóris, que é um órgão fálico). Por outro lado, ela tem acesso a esse gozo Outro, que não tem nada a ver com o parceiro. É um gozo solitário, um gozo dela.
O Amor, o Desejo e o Gozo
Este seminário redefine a relação entre amor, desejo e gozo à luz da diferença sexual.
- O Desejo é sempre desejo do Outro, metonímico, insatisfeito. Ele se apoia na fantasia ($ <> a).
- O Gozo é a satisfação da pulsão. O gozo fálico é o que se pode obter através da fantasia. O gozo Outro é o que escapa a ela.
- O Amor é o que supre a ausência da relação sexual. É o que se dirige ao ser do outro, para além de suas qualidades ou de seu papel como objeto de desejo. O amor, diz Lacan, é “dar o que não se tem”. É dar a própria falta, o próprio nada, ao outro. É no amor que o abismo entre os gozos pode, por um instante, ser velado.
Lacan afirma que o homem, em sua busca pelo objeto a na mulher, ama mais a causa de seu desejo do que a mulher em si. A mulher, por sua vez, ama o amor. Ela demanda signos de amor, pois é o amor que dá um sentido e um limite ao gozo devastador que ela pode experimentar.
Conclusão: Uma Nova Teoria da Sexualidade
O Seminário 20: Mais, ainda é uma das contribuições mais profundas e poéticas de Lacan. Ele desconstrói séculos de pensamento filosófico e psicológico sobre a mulher, recusando-se a defini-la pela falta ou pela inveja. Em vez disso, ele propõe uma lógica da alteridade radical, uma lógica do não-todo que abre um espaço para um gozo que não pode ser domesticado pelo significante.
As fórmulas da sexuação não são uma descrição da realidade, mas uma ferramenta lógica para pensar a impossibilidade que estrutura a vida sexual dos seres falantes. Elas nos mostram por que “não há relação sexual” e por que o encontro entre homem e mulher é sempre um mal-entendido, um desencontro que só o amor pode, por vezes, transformar em encontro.
Este seminário é uma leitura essencial para quem quer compreender a teoria lacaniana da sexualidade em sua forma mais avançada. É um texto que desafia, provoca e ilumina, levando a psicanálise a um novo patamar de rigor e de poesia. Para explorar as fronteiras do gozo e da diferença sexual, o Lacan Seminário 20 em PDF é uma experiência transformadora.

Sou Cristian, psicanalista. Minha prática combina escuta atenta, criatividade e empatia, criando espaços acolhedores para expressão e individuação. Atendo online, oferecendo um ambiente seguro e respeitoso para cada pessoa explorar sua singularidade com autenticidade.





