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Resumo do Livro “Lacan Seminário 15: O Ato Psicanalítico”
O Seminário 15 de Jacques Lacan, intitulado O Ato Psicanalítico, proferido entre 1967 e 1968, é uma investigação sobre a natureza do ato que define a própria psicanálise. Lacan se pergunta: o que é um ato? E, mais especificamente, o que constitui o ato psicanalítico? Ele distingue o ato de uma simples ação ou comportamento. O ato é um momento de ruptura, um ponto de virada que modifica o sujeito em seu ser. Neste seminário, Lacan explora o ato psicanalítico em duas vertentes principais: o ato do analisando ao entrar em análise e o ato do analista ao autorizar o fim da análise e, potencialmente, a passagem de seu analisando à posição de analista.
Este seminário é famoso por ser o momento em que Lacan propõe formalmente o dispositivo do passe. O passe é o procedimento que ele inventou para verificar o fim da análise e para recolher um saber sobre o que acontece nessa passagem crucial de analisando a analista. Lacan questiona radicalmente a ideia de que alguém se torna analista através de uma formação acadêmica ou de uma autorização hierárquica (como na IPA). Para ele, o analista só se autoriza de si mesmo, mas essa autorização deve ser verificada e sancionada pela Escola. O ato psicanalítico, portanto, não é um ato de conhecimento ou de poder, mas um ato que implica uma perda, uma destituição subjetiva, um “des-ser”. É o ato pelo qual o sujeito atravessa sua fantasia fundamental, se confronta com o objeto a que o causa e assume a responsabilidade por seu desejo.
O Ato: Ruptura e Modificação do Sujeito
Lacan inicia o seminário diferenciando o ato da ação. A ação é um movimento no mundo que visa a um resultado. O ato, em contrapartida, é um momento de corte, um instante em que o sujeito, muitas vezes sem saber, se compromete e se transforma. O ato tem um efeito retroativo: ele ressignifica o passado do sujeito e define seu futuro. Um exemplo clássico é o de César cruzando o Rubicão: esse ato não foi apenas uma ação militar, mas um ponto de não retorno que o definiu como inimigo de Roma e mudou o curso de sua vida e da história.
O ato psicanalítico também tem essa estrutura. Ele não é um ato de mestria ou de saber. Pelo contrário, ele surge de um ponto de impotência, de um “não sei”.
- O Início da Análise: A entrada em análise já é um ato. O sujeito, sofrendo de seu sintoma, decide falar com um analista. Esse ato implica uma suposição (o Sujeito Suposto Saber) e uma renúncia. O sujeito renuncia a tentar resolver seu sofrimento sozinho e se submete à regra fundamental da associação livre. Ele se coloca em uma posição de objeto, de alguém que será “analisado”. Esse ato inicial já modifica sua posição subjetiva.
- O Fim da Análise: O fim da análise também é marcado por um ato, tanto do analisando quanto do analista. É o momento em que o analisando, tendo percorrido o caminho de sua verdade, está pronto para se separar do analista e assumir sua própria causa. O ato do analista é o de sancionar esse fim, de não reter o paciente em uma análise interminável.
A Travessia da Fantasia e a Destituição Subjetiva
O que acontece no percurso de uma análise que torna possível o ato final? Lacan responde: a travessia da fantasia. A análise leva o sujeito a construir e a articular sua fantasia fundamental ($ <> a), a reconhecer o cenário repetitivo que governa seu desejo e seu gozo. A travessia da fantasia não é sua eliminação, mas o momento em que o sujeito percebe a lógica dessa construção, se desidentifica do objeto a com o qual ele estava alienado e reconhece que o Outro não existe, que o Outro é barrado, faltoso.
Esse momento é chamado por Lacan de destituição subjetiva. O sujeito, ao fim da análise, é “destituído” de suas identificações fundamentais, de suas certezas imaginárias e do suporte que a fantasia lhe dava. O Sujeito Suposto Saber, que sustentava a transferência, cai. O sujeito se descobre sem garantias, confrontado com a falta no Outro e com a sua própria falta-a-ser. Ele não é mais o objeto da fantasia, mas um sujeito confrontado com a causa de seu desejo.
Isso não leva ao desespero, mas a uma nova posição. Liberto da repetição da fantasia, o sujeito pode agora inventar um novo saber-fazer com o seu sintoma e com o objeto a. O sintoma, que era uma mensagem cifrada e sofredora, pode se tornar um sinthoma, uma maneira singular de gozar e de se amarrar no mundo, mas agora de forma assumida e criativa.
O Passe: De Analisando a Analista
É a partir dessa lógica do fim da análise que Lacan propõe o dispositivo do passe. Se o fim da análise implica a queda do Sujeito Suposto Saber e a destituição subjetiva, como alguém pode, a partir daí, desejar ocupar o lugar do analista, o lugar do Sujeito Suposto Saber para um outro?
Essa é a questão central do passe. Lacan estava insatisfeito com o modelo de formação da IPA, que se baseava em uma identificação com o analista (a análise didática) e em uma avaliação hierárquica. Ele propõe um dispositivo radicalmente novo para verificar se um analisando realmente atravessou sua análise e se dele pode surgir um analista.
O dispositivo funciona da seguinte maneira:
- O Passante: O analisando que chegou ao fim de sua análise e deseja se tornar analista (ou simplesmente dar seu testemunho) se apresenta como “passante”.
- Os Passadores: O passante relata os momentos cruciais de sua análise, especialmente o que o levou ao fim, a dois outros analisandos (“passadores”) que estão em um estágio avançado de suas próprias análises.
- O Cartel do Passe: Os passadores, então, transmitem o que escutaram a um júri de analistas experientes (o “cartel do passe”). O júri não escuta o passante diretamente, mas o testemunho dos passadores.
O objetivo não é avaliar o saber teórico do passante, mas detectar na estrutura de seu relato os sinais lógicos da travessia da fantasia, da destituição subjetiva e da emergência de um novo desejo, o desejo do analista. O desejo do analista é um desejo que surge da própria experiência da falta, um desejo de ocupar o lugar do semblante de objeto a para permitir que a análise de um outro aconteça.
O passe é uma aposta: a de que é possível transmitir a psicanálise não como um saber acadêmico, mas como uma experiência de transformação subjetiva. É a tentativa de responder à pergunta: o que autoriza um analista? A resposta de Lacan é: o ato que o produz ao final de sua própria análise.
Conclusão: O Ato que Funda a Psicanálise
O Seminário 15: O Ato Psicanalítico é uma reflexão profunda sobre a temporalidade, a lógica e a ética da experiência analítica. Lacan nos mostra que a psicanálise não é um processo contínuo de autoconhecimento, mas uma sequência de atos que marcam rupturas e transformações.
O ato de entrar em análise, o ato de interpretar, o ato de concluir e, finalmente, o ato de se tornar analista são momentos em que o sujeito é chamado a se reposicionar em relação à sua verdade. O dispositivo do passe é a tentativa de formalizar e socializar o saber que se produz no momento mais singular e íntimo da experiência analítica: o seu fim.
Este seminário é crucial para quem se interessa pela formação do analista e pela política da psicanálise. Ele nos desafia a pensar o que significa levar uma análise até suas últimas consequências e qual é a natureza do ato que permite que a psicanálise continue a existir. Para explorar a fundo a lógica do ato e do passe, o Lacan Seminário 15 em PDF é um recurso indispensável.

Sou Cristian, psicanalista. Minha prática combina escuta atenta, criatividade e empatia, criando espaços acolhedores para expressão e individuação. Atendo online, oferecendo um ambiente seguro e respeitoso para cada pessoa explorar sua singularidade com autenticidade.





